"Eu também sei iludir, sei colecionar corações.
Eu sei fazer com que as lágrimas caiam.
Eu sei enganar, sei brincar de ilusão.
Só que interpretar esse papel, não vale a pena."
— Querido John
"Você quer me contar que sente angústia e não sabe amar. Você sempre quer me contar que sente angústia e não sabe amar como se isso fizesse de você mais misterioso e complicado e “escolhido pelo capeta” do que os outros mortais. Ninguém sabe amar, todo mundo tenta amar porque é preciso pra não se matar, todo mundo ama entre essa de não saber e tentar e não se matar. Ter um estômago enjoado é o que nos diferencia de bonobos. Buhuhu pra você. Mimimi pra você. Lembro de quando eu não sabia dirigir carro automático mas te vi dormindo tão bonito e quis tirar o seu carro da rua perigosa e colocar na minha vaga. Eu demorei trinta minutos pra conseguir fazer isso. Eu voltei pro quarto e você me olhou com dó e disse que não conseguia ficar e foi embora. Eu também não consigo ficar. Eu também não consigo pensar que estou estacionada na vaga de uma pessoa. Eu só quis tanto que você ficasse porque é mais fácil querer quando a pessoa já é mais um vulto de desculpas se esvaindo do que uma carne entregue e densa numa cama. Você foi embora esse dia e nunca mais voltou. A gente dançou Bluebird abraçadinho no show, a gente voltou com as janelas do carro bem abertas porque estava calor e o calor tinha cara de uma felicidade que corava e aquecia o sangue. Eu te abracei tomando cuidado pra não te sufocar quando você teve uma crise de ansiedade. Eu estava tendo uma crise de ansiedade mas a enxerguei melhor em você. Eu amava você. E suas janelas emperradas e seus bonequinhos no banheiro e a voz mansa e doce de mal elemento e o cinismo genial me afastando de você enquanto eu queria amarrar meu cabelo no seu pé e seguir do seu lado mesmo sendo desconfortável. E de como seus olhos ficam assustadoramente psicóticos quando você bebe. Você foi embora nessa noite e nunca mais voltou. Sua camiseta colorida eu dei pro meu porteiro. Sua meia puída eu joguei fora. Seu chinelo sujo com o nome dos noivos de um casamento em Angra eu guardei um tempo, pra lembrar que seus pés eram pequenos e gordinhos. Depois dei pro faxineiro do prédio. Nesse dia do chinelo eu chorei. Chorei muito. Era sua última coisa comigo e ela foi pro meu faxineiro e isso me pareceu tão injusto e triste e sujo de se fazer. Você já faz um ano e cinco meses. Ficamos juntos três semanas e dois dias há um ano e cinco meses. Um milhão de pessoas de um milhão de galáxias ficaram três semanas e dois dias comigo. Mas você eu já desisti de esquecer. Pra sempre eu vou sentir um elevador de gelo seco em todos os meus andares quando você aparece de alguma maneira. Quando tem foto sua, quando tem recado seu, quando tem você atravessando a avenida. Esse texto nem ficou bom, porque agora amo outra pessoa e então eu nem consigo te dizer nada incrivelmente bonito. Mas queria vomitar a última micrograma de sal viciante no fundo de um saquinho de salgadinhos que fazem mal mas que, na pressa, às vezes usamos como refeição. Lembro de você, antes de atender o entregador de pizza no interfone, me dizendo que não aguentava mais fazer o personagem “homem perfeito pra mim”. Eu nunca te preferi por causa dos seus trechos de livros, músicas, mãos dadas, dedicações corporais, gostos para poesias, diálogos inteligentes e comidas entregues em casa. Eu nunca te preferi por causa das suas histórias de aventuras ou do seu sucesso enquanto jovem talentoso e gato com carrão a apartamento no metro quadrado mais caro de São Paulo. Eu nunca te preferi como uma menina que te prefere porque você é um personagem muito trabalhado para ser preferível. Tudo isso era só uma boa música e uma boa fotografia e uma boa direção e um bom roteiro. Mas eu amava o negativo preto e branco e de ponta-cabeça. A fagulha de ideia da sua existência. O seu nariz aristocrático e a sua boca corada mesmo quando você empalidecia no começo da noite. Eu amava você dormindo, de barriga pra baixo, os cachos espalhados no meu nariz, o suor na nuca secando ao longo da noite, sua barriga enchendo de ar de forma errada porque você respira mal. Eu amava você chamando seu bruxismo de vampirismo e depois dizendo que eu te deixava nervoso. Eu amava o medo que você tinha de eu te amar em tão pouco tempo e do sentimento ser grande o suficiente para eu perceber, colorir e decorar suas minuciosidades desimportantes. Amava sem você fazer nada, só respirando pesado, só lutando com seu peito angustiado, só perdido, só tentando ficar mesmo não sabendo como."
— Tati Bernardi
"E acabou porque eu quis. Afirmo hoje, com convicção e frio. Preciso de meias. Meus pés estão gelados, tanto quanto o que tem aqui dentro do peito. Não sei se posso mais chamá-lo de coração. É realmente um pedaço de músculo, mas… Tão sem vida ultimamente. Hoje chove, chove muito; desde cedo. Me lembrou o dia em que tudo acabou. Não que tenha acabado de fato, ali. Nós procuramos estender um pouco mais, só que não resolveu. Como aquele chiclete que a gente pega da boca, prende nos dentes, sai puxando e as pessoas olham e dizem: “Nossa, que coisa nojenta!” Então, foi como um chiclete. Eu peguei tudo o que passamos juntos e grudei com os desejos que eu ainda tinha pra nós dois. Aí eu saí puxando. Puxei, puxei, puxei, até que você arrebentou. Eu disse que foi nojento. Que foi mesquinho e escroto. Você foi moleque! Desculpa, esses teus 20 anos só constam na certidão de nascimento, porque mentalmente você é uma criança birrenta e babona. Nosso amor era imaturo. Eu era imatura. Eu era criança também, admito. Só que um pouquinho mais crescida que você. Errei muito, errei demais, confesso. Mas tu erraste muito também! E nós tampamos os olhos pros erros. Tentamos passar uma borracha em tudo achando que assim os apagaríamos e que essa seria a solução mais cabível. A borracha gastou-se, virou farelo. O mesmo que eu assoprei na mesma direção em que você foi embora. Quando teu pé tocou o outro lado da porta meus olhos hesitaram em deixar a primeira lágrima cair. Eles temiam que após ela viessem muitas outras. Pois então, dito e feito. Quantas lágrimas… Ah… Como eu chorei! Chorei tanto que por dias pensei que não teria mais lágrimas para chorar outra vez. Eu juro, eu ouvi a nossa música por horas. Eu li, reli e treli tuas cartas. Eu gravei cada palavra, acento e pontuação, tudo isso antes de queimá-las. Ao mesmo tempo em que eu queria me livrar de tudo por ter acabado também queria que eu não esquecesse de nada, pensando talvez numa possível reconciliação mais pra frente. Eu tomei um banho, tomei café e comi metade de um pão que desceu entalado garganta abaixo. Deitei, e… Cadê que as lágrimas tinham acabado? Aquelas que despejei no ralo pareciam ter evaporado e entrado pra dentro de mim novamente. Chorei, chorei muito. Minha mãe só me abraçava. Ela não perguntava nada, só queria resolver. Mãe é assim, não se preocupa muito com perguntas nessas horas, elas querem mesmo é achar uma solução. Ela, querendo que tudo ficasse bem. Eu, me arrependendo desse meu primeiro namoradinho. Bobeira até, vendo agora essa situação toda num passado um pouco distante (não muito). Por mais que muitas aitudes minhas tenham sido erradas, por mais que eu nunca tenha sido um exemplo de filha, por mais que eu já tenha esquecido de levar a louça, não ter varrido muito bem os cantinhos da sala e não ter dobrado do jeito que ela queria as cobertas não levei bronca. Dela não levei esporro e muito menos esculacho algum. Meu castigo foram abraços, carinhos e um “filha, não se preocupe com nada, a mamãe te ama muito!”. E de você, o que eu recebi? Xingamentos. Sei lá, você só abria a boca pra falar merda. E olha aí as lágrimas de novo. Mais choradeira. Tava me sentindo a mocinha incompreendida da novela das oito. Eu pedi a Deus para que tudo que tivesse acontecendo fosse um pesadelo. Você dizia que os cinco meses que passou comigo não foram nada, que não tiveram valor algum pra ti e que se pudesse os deletaria da tua vida. Eu não conseguia imaginar que aquilo fosse verdade. Talvez teu irmão estivesse se passando por você só pra me trollar. Mas não. Era você. Era você como eu nunca tinha visto antes. Você não procurava me entender, não compreendia meus motivos, apenas abria a boca pra disparar acusações. Eu abria a minha pra soltar soluços e gemidos abafados. Gemidos de dor. Meu peito se apertava cada vez mais, como se cada palavra que tu dissesse fosse a tua mão apertando-o mais forte a cada segundo. Isso durou semanas. Perseguições, mensagens e telefonemas. Você não se cansava de me perturbar. Eu já estava cansada da perturbação toda e de você. Você não disse, depois de tudo, que o que fez foi apenas pra despertar ódio em mim já que você não conseguia me odiar? Que esse blá blá blá todo de ex namorado incorformado fosse pra que eu ficasse melhor no final mesmo que doesse muito no momento? Parabéns, pra ti vai o troféu Senhor Ridículo do ano. Conseguiu o que queria, minha raiva por você. E justo no dia em que fez um ano que tudo acabou você volta. Você volta dizendo que ainda me ama. Que ainda me quer. Que nunca conseguiu amar alguém como me ama. Que nenhuma preenche o vazio que eu deixei. Palhaço, se contente com a metade que se tornou, porque eu não armo mais circo nenhum pra você fazer graça. Que faça teu espetáculo pra platéia que ainda te assiste, porque eu me arrependo do preço amargo que paguei pelo ingresso desse espetáculo xulo. Do qual, se eu pudesse, apagaria pra sempre da minha memória."
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É rapaz, teu picadeiro desmoronou… Luana Rabello, ac-alma.